Isolado, com ela, na ilha idiomática comum, ouço-a e — procurando com zelo os termos precisos — conto-lhe a viagem, atento ao modo como a sua pele, tecido brando e, em certo sentido, ilusório, absorve a claridade.
As sombras adensando-se na água e no cimento rachado: e a Cidade boiando no centro do recinto, anacrônica, com suas praças de esmalte, circulares e não maiores que anéis.
uma criança e um cão caberiam na caixa de madeira, Heckethorn, ventos ligeiros tapete bosque canto festivo de aves, meu nome se enuncia em algum ponto, dos corpos? meu nome um centro?
E eu tento outra vez como quem tenta um salto, um mergulho, um passe acrobático, tento outra vez, agora com mais força, com mais ódio, e grito: "Inferno!".
A Cidade que surge instigando-me a encontrá-la e que tenho gravada no espírito, deve estar inserida, incrustada em ruas novas e novos quarteirões, emaranhada em outra.
Passo a mão esquerda, de menino, na pele raspada e no púbis castanho; com a direita, feminina, aperto o imaturo sexo invisível, dobrado para trás, oculto entre as coxas.
Planam, acima de nós, como se fossem alados, bichos do chão e da água: rãos, lontros, peixes-vacas, emos, búzias, tartarugos, camarás, arraios, lesmos, calangas, suçuaranos.
Tenho a minha vida nas mãos, Abel. Recebe-a. Mas ouve: o amor, artefato de difícil manejo, é cheio de botões secretos e de facas que à mínima imperícia ou distração saltam voando e lanham a carne".
(a língua sibilante móvel dupla insaciável, a língua sopradora veludosa quente ágil cheiro de verniz sabor de amêndoas cheiro de manhãs sabor de cuspe cheiro de barricas sabor de pão cheiro de pano queimado sabor de leite a língua: dança na minha boca)
Forma-se, com o embrião no ventre de Cecília, outro embrião de gestação mais curta, um embrião que nos envolve, que nos faz luminosos, mais leves, ferozes, desdenhosos, maiores e sua plenitude tem de coincidir com o minuto preciso do desfecho.
uma espécie de beleza solene e vagamente aterradora — seus gumes acerados —, placas lívidas no rosto, o peito imóvel, a mão direita sobre o sexo como se nele se aquecesse, bate o coração?
A peroba-rosa (Aspidosperma gomezianum), cortada em retângulo e portanto assentável em desenhos variados, é a mais empregada, dentre as madeiras de lei, como revestimento dos pisos.
Não o pai carnal e nem sequer um pai imaginário. Um pai de outro gênero. Reconheço-o e sinto o cheiro do seu corpo. Um cheiro de trabalho constante, mas não árduo.
Curvamo-nos, as mãos à altura dos olhos, fazendo o possível, apesar dos ciscos e das asas nas pestanas, para não perdê-lo de vista (sua plumagem de ébano) e rimos, sufocados, do seu grasnido lastimável, um aleijão: laringe de chifres e de botinas velhas?
Tenderna é essa luz que evoca a porcelana e que vemos no quarto antes do amanhecer. Lanstoso: o ar da pessoa que deseja agredir-nos e não o faz por temor.
Cruzamentos e trocas minha língua em meu ouvido por trás do pássaro na árvore um seio e um braço levantado grita a sua boca no meu fêmur e o coração que bate na garganta (minha? sua?) pertence a algum bicho.