
dlvr.itLula vence. Quais os desafios para o quarto mandatoFOTO: Ricardo Stuckert/Divulgação - 05.set.2026
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito presidente do Brasil, segundo projeção do Nexo com 75,9% das urnas apuradas.
O petista venceu Flávio Bolsonaro (PL), que havia ficado à frente no primeiro turno. É a primeira vez que ocorre uma virada na corrida presidencial desde a redemocratização.
Lula chegará ao quarto mandato – algo inédito na história do Brasil – após lidar com uma sequência de ameaças à democracia entre 2023 e 2026, como a tentativa de golpe simbolizada pelo ataque de bolsonaristas aos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023, e a interferência dos Estados Unidos sobre a política e a eleição brasileira.
Neste texto, o Nexo mostra quais são as promessas de Lula para o quarto mandato e avalia com cientistas políticos os seus principais obstáculos.
O que marcou a campanha
Em 2026, a campanha de Lula deu destaque a temas como a soberania brasileira, a valorização das entregas do terceiro mandato e a defesa de seu legado. Não houve formação de uma frente ampla, como a erguida em 2022 e que ajudou a eleger o petista contra Jair Bolsonaro (PL) – após a derrota eleitoral, o ex-capitão liderou uma tentativa de golpe de Estado.
Defesa da soberania
A partir de 2025, o Brasil passou a ser alvo de interferência do governo dos EUA. De volta à Casa Branca, Donald Trump impôs um tarifaço sobre a economia brasileira após articulações do bolsonarismo nos EUA, lideradas pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL). A reação enfática de Lula gerou melhora na avaliação do governo em meados daquele ano, inclusive fora de suas bases de apoio tradicionais.
Na corrida de 2026, a campanha de Lula explorou a questão da soberania e atrelou Flávio Bolsonaro a um “entreguismo” do Brasil aos EUA, sobretudo na exploração das reservas brasileiras de terras raras.
O possível investimento estrangeiro na campanha bolsonarista foi outro ponto que gerou questionamentos por parte do PT. O partido entrou com ações no Supremo Tribunal Federal e no Tribunal Superior Eleitoral pedindo investigação sobre um possível financiamento da candidatura de Flávio pelo fundo de investimentos Rockbridge Network, cofundado pelo vice-presidente americano J.D. Vance em 2019 – a legislação eleitoral brasileira proíbe doações estrangeiras.
Em discurso na Assembleia-Geral das Nações Unidas em 22 de setembro, o presidente defendeu a soberania e a democracia do Brasil, e pregou a não interferência em assuntos internos do país, sem citar nominalmente Trump ou os Estados Unidos.
Defesa do legado
Ao longo da campanha eleitoral, Lula também destacou medidas tomadas durante o terceiro mandato, como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000 e ações de combate ao crime organizado.
Para fazer frente ao mal-estar econômico da população e à insatisfação com o custo de vida, o petista enfatizou indicadores macroeconômicos alcançados entre 2023 e 2026, como a inflação baixa, o desemprego em mínima histórica e o PIB em crescimento. Também promoveu o discurso de fim da escala de trabalho 6×1, aprovada pelo Congresso entre o primeiro e o segundo turno.
FOTO: Valter Campanato/Agência Brasil 15.04.2026
Lula também fez uma defesa de seu legado e das mudanças sociais promovidas por programas lançados nos primeiros governos petistas, na década de 2000. Entre as políticas mais citadas estão o Minha Casa Minha Vida e o Bolsa Família, além da ampliação do acesso ao ensino superior, que aumentou a proporção dos brasileiros com formação universitária.
Reajuste do Bolsa Família
Em 17 de setembro, a 17 dias do primeiro turno, Lula anunciou um reajuste de 15% nos valores do Bolsa Família. A partir de 19 de outubro, o piso do benefício subiu de R$ 600 para R$ 691, e o valor médio pago pelo programa aumentou de R$ 675 para R$ 777.
A medida foi questionada por adversários políticos de Lula, que a classificaram como eleitoreira. Renan Santos (Missão) chegou a acionar o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), pedindo uma liminar para suspender os pagamentos do benefício até janeiro de 2027. O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, se antecipou à Justiça Eleitoral e decidiu que o reajuste era legal e não feria regras eleitorais, uma vez que apenas corrigia cifras defasadas de um programa já existente.
Fim das bets
A nove dias do primeiro turno, Lula anunciou a proibição das bets no Brasil, oficializada na forma de uma medida provisória. O mercado de apostas online foi legalizado em dezembro de 2018, no final do governo do ex-presidente Michel Temer (MDB), mas operou ao longo de todo o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) sem regras, fiscalização e pagamento de impostos.
FOTO: Ricardo Stuckert/02.10.2026
O setor foi regulamentado em dezembro de 2023, quando Lula sancionou a lei das bets, com diretrizes para a operação de sites de apostas esportivas, sob fiscalização do Ministério da Fazenda. Mas as apostas seguiram afetando o país, da economia à saúde pública, com efeitos no endividamento e no consumo das famílias, e aumento de atendimentos no SUS (Sistema Único de Saúde) para tratamento da ludopatia.
R$ 120 bilhões
valor que as bets tiraram da atividade econômica brasileira em 2025, segundo estudo do Made-USP (Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo)
Por ter feito o anúncio às vésperas da eleição, Lula foi criticado pela oposição por ter tomado uma medida que seria eleitoreira. A proibição foi bem recebida pela população, sendo defendida por 78% dos brasileiros, segundo pesquisa Datafolha divulgada em 1° de outubro (registro BR-08039/2026).
Crise institucional
O período da campanha também foi marcado por um ambiente de crise institucional que afetou a candidatura do petista. A principal marca dessa turbulência foi a instabilidade inédita no Supremo Tribunal Federal com os desdobramentos das investigações do Banco Master.
FOTO: Gustavo Moreno/STF 15.09.2026
Embora Flávio Bolsonaro tenha aparecido diretamente na teia de conexões do banqueiro Daniel Vorcaro, o caos na corte respingou no presidente, principalmente pelo envolvimento do ministro Alexandre de Moraes. O magistrado, que não foi indicado por Lula, e sim por Michel Temer em 2017, acabou sendo atrelado ao petista por ter presidido o TSE durante a eleição de 2022, e por sua condução no julgamento da trama golpista, que condenou Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentativa de ruptura democrática no país.
Exército digital
Na campanha de segundo turno, passado o foco do noticiário no Supremo, o TSE tomou ações controversas envolvendo o canal de Whatsapp “Exército do Lula”, criado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG) para mobilizar apoiadores do presidente nas redes e buscar convencer indecisos. As iniciativas de eleitores de Lula incluíram também grandes manifestações de rua em diversas cidades do país.
Em 11 de outubro, atendendo pedido da campanha de Flávio, Nunes Marques determinou a retirada do canal do ar, sob o argumento de que o espaço digital replicava conteúdos inverídicos. Após vaivém de entendimentos e uma perícia do TSE que não detectou notícias falsas, o canal voltou a funcionar e cresceu – no domingo (25), tinha 10,8 milhões de seguidores.
Nunes Marques e André Mendonça, vice-presidente do TSE, articularam na quarta-feira (21) uma minuta para vetar canais políticos com mais de 200 mil integrantes 48 horas antes e 24 horas depois das eleições. O documento foi revelado pelo jornal Folha de S. Paulo. Depois de vir a público, Nunes Marques disse que não havia planos nesse sentido, mas surgiram novas discussões nos bastidores que diziam que ele poderia derrubar o canal novamente. O PT então entrou com ação no tribunal para impedir uma nova suspensão do “Exército”, e o ministro Floriano de Azevedo Marques barrou qualquer suspensão por via administrativa.
As promessas do plano de governo
Segurança pública
As principais propostas na área incluem a criação do Ministério da Segurança Pública, que o governo condiciona à aprovação da PEC da Segurança Pública entregue por Lula ao Congresso em 2025; fortalecimento do programa Brasil Contra o Crime Organizado, que se divide em eixos como a asfixia financeira das organizações criminosas e o esclarecimento de homicídios; investimentos na urbanização de favelas; e manutenção da política de controle de armas de fogo e munições.
Educação
As principais propostas são ampliar a educação em tempo integral; alfabetizar 80% das crianças na idade certa; expandir o programa Pé-de-Meia, uma bolsa aos estudantes do ensino médio que ajudou a reduzir a evasão escolar no terceiro mandato; seguir com medidas de apoio e valorização à docência, como o programa Mais Professores para o Brasil; manter a expansão de institutos federais de educação técnica e tecnológica; e implantar novas universidades.
Saúde
As principais propostas são a ampliação de atendimentos especializados, mantendo parcerias com hospitais privados; expandir o programa Farmácia Popular, incluindo exames laboratoriais gratuitos de diagnóstico e monitoramento para hipertensão e diabetes; aumentar unidades de atendimento odontológico; consolidar a rede pública de oncologia e agilizar emissão de laudos de biópsias feitas em regiões isoladas; e fortalecer o Complexo Econômico e Industrial da Saúde com novas tecnologias para desenvolvimento de insumos diversos.
Economia
As principais propostas são articular o fim da escala 6×1 e a diminuição da jornada de trabalho para 40 horas, sem redução salarial; manter a política de valorização do salário mínimo; combate à pejotização; ampliação de políticas para os trabalhadores autônomos e pequenos empreendedores; criação de condições para uma redução sustentada das taxas de juros; desenvolver uma política para minerais críticos e terras raras, para evitar a simples exportação de matérias-primas estratégicas; e acelerar a difusão da inteligência artificial no setor produtivo, com foco em agro, saúde e serviços financeiros.
Política externa
As principais propostas focam na defesa da soberania nacional, que tem sido ameaçada pelos Estados Unidos. O plano propõe consolidar a América Latina e Caribe como uma zona de paz; estabelecer o Mercosul como a principal plataforma de integração econômica, produtiva, política e social; investir na abertura de novos mercados para bens e serviços; estreitar a aproximação geopolítica com os Brics, o G20 e o Sul Global; fortalecer a política de defesa nacional e a Base Industrial e Tecnológica de Defesa; e liderar debates para regulamentação de inteligência artificial e plataformas digitais com base nos princípios de soberania digital.
Cultura
As principais propostas incluem democratização dos principais instrumentos de fomento à cultura; fortalecimento do programa Cultura Viva; fomento ao desenvolvimento de infraestrutura cultural em territórios periféricos; aprovação de regulamentação do streaming; fortalecimento e consolidação de uma política industrial para o setor audiovisual; aprovação de uma lei do direito autoral em ambiente digital; fomento à oferta de vagas em cursos técnicos e profissionalizantes de formação e qualificação artística; e consolidação de atividades artísticas integradas ao currículo escolar.
Mulheres
O plano de governo de Lula coloca o enfrentamento à violência contra as mulheres como uma prioridade. O documento propõe medidas como manter ações para promoção do trabalho de mulheres a partir da Lei da Igualdade Salarial, aprovada em 2023; criar cuidotecas para crianças entre 3 e 12 anos, além de expandir creches; concluir a construção de 30 Casas de Mulher Brasileira e ampliar as salas lilás (espaços de acolhimento em órgãos públicos para atender mulheres e meninas em situação de violência); fortalecer o planejamento reprodutivo e o acesso a métodos contraceptivos modernos no SUS; e criar oportunidades econômicas para mulheres, como linhas de crédito especial para agricultoras, fomento ao empreendedorismo e qualificação para participação na ciência e pesquisa.
Os desafios do quarto mandato
O Nexo ouviu os cientistas políticos Paulo Niccoli Ramirez, professor de sociologia da Fesp-SP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), e Joyce Martins, professora do programa de pós-graduação em ciência política da Ufal (Universidade Federal de Alagoas), sobre os desafios de Lula no quarto mandato.
Para ambos, a frustração dos brasileiros com o custo de vida deve seguir como um dos principais problemas – os bons índices da taxa de desemprego e da inflação no terceiro mandato não se refletiram em aprovação para o presidente. “O desafio é fazer com que esses empregos permitam à população adquirir poder de consumo”, disse Ramirez. O professor também citou a necessidade de medidas que resultem na queda da taxa de juros, que segue elevada e gera dificuldades ao consumo de longo prazo.
Na avaliação dos pesquisadores, a hostilidade do Congresso – algo que se arrastou ao longo do terceiro mandato, ora com a Câmara dos Deputados, ora com o Senado – vai persistir. A relação conflituosa travou pautas importantes, como o fim da escala 6×1, que ficou meses aguardando votação antes de ser aprovada pelo Senado antes do segundo turno.
FOTO: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
“Lula vai governar diante de um país dividido, polarizado, e com um Congresso que está contra ele. Se o Congresso estará sempre contra, que o eleitorado não esteja sempre contra. Se os eleitores mostram maior adesão ao governo, o Congresso precisará agir de uma forma diferente, com maior abertura para o diálogo”, afirmou Martins.
A soberania nacional é outra questão central, segundo Ramirez. Desde 2025, o Brasil tem enfrentado sanções econômicas dos Estados Unidos, influenciadas pelo lobby do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL). “Há interesse nas terras raras brasileiras. Será necessário agregar valor a essas riquezas naturais e criar uma indústria nacional para não só extrair, mas processar essas riquezas. E isso deve gerar sabotagens do governo Trump e de agentes políticos no Congresso”, disse Ramirez.
Supremo e sucessão
Lula vai precisar seguir lidando com a crise no Supremo Tribunal Federal que se arrasta desde dezembro de 2025. Naquele primeiro momento, o jornal O Globo publicou informações que indicavam o envolvimento de Dias Toffoli com Daniel Vorcaro. O jornal também revelou a existência de um contrato milionário entre o banco e a advogada Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes.
No começo de setembro de 2026, faltando quase um mês para as eleições, a crise se aprofundou com a retirada de sigilo, por André Mendonça, de conversas entre Moraes e Vorcaro, seguida por uma guerra de relatórios e liminares entre ministros, além de uma sessão pública que escancarou as divisões na corte.
Às vésperas do primeiro turno, ocorreu um novo embate de decisões, desta vez envolvendo o TSE e o STF em uma discussão sobre posts que associavam Flávio Bolsonaro à possibilidade de retirada do status de padroeira de Nossa Senhora Aparecida.
“Quando o PT chegou ao Executivo Federal, em 2000, o mundo era muito diferente. Se acreditava mais nas instituições, que a democracia poderia sanar problemas econômicos e as desigualdades sociais. Hoje, há uma dificuldade grande para o eleitor acreditar nisso, há uma descrença geral com o sistema político. Se pensarmos que o STF era, para uma parte do eleitorado, guardião da Constituição e fiscalizador dos atos dos políticos, hoje estamos em um contexto em que isso foi perdido”.
Joyce Martins
professora do programa de pós-graduação em Ciência Política da UFAL (Universidade Federal de Alagoas), em entrevista ao Nexo
O presidente tem pendente a indicação ao Supremo para a vaga deixada por Luís Roberto Barroso, que se aposentou em 2025. O advogado-geral da União, Jorge Messias, chegou a ser indicado por Lula em 2026, mas foi derrotado em sabatina no Senado, algo que não acontecia havia 132 anos. Foi um episódio de grande desgaste político para o presidente.
Fora essa cadeira, Lula terá a possibilidade de indicar outros três nomes após a aposentadoria compulsória de Luiz Fux (em 2028), Cármen Lúcia (em 2029) e Gilmar Mendes (em 2030).
Segundo Paulo Ramirez, além de administrar todos esses reveses, Lula precisará trabalhar no nome de seu sucessor político, já que esse será o seu último mandato.
“O PT não tem figuras carismáticas para dar continuidade ao projeto de Lula. Isso nos faz pensar se o partido vai continuar protagonista, ou se vai ser o aliado de alguma outra legenda ou figura de esquerda que não seja petista”, afirmou o cientista político.